domingo, 30 de outubro de 2016

Canto Jovem

Deixo meus olhos modelando estrelas
e minhas mãos dançando poesia.
Deixo meus passos contando à poeira
a história secreta das magias.

Deixo, e sigo te esperando.

Deixo os cabelos fundirem-se na noite
e serenados por lágrimas brilhantes
serem o dançarino par de leve sombra
o eterno véu do sonho que não veio.

Deixo, e sigo só buscando.

Deixo que o vento toque em minha face
o perfume, o sonho de esperança.
Deixo e sigo aguardando.

Deixo tudo, tudo
e sigo só esperando.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A Desconhecida


Sou a balairina
que dança em teus sonhos
qu brinca com o vento
junto à tua porta
... e tu não me conheces.

Sou a que veio da infância
a que se prolongou nas eras
e te envolveu de paz.
Sou a que te cantou mil vezes
em seus versos
... e tu não me conheces.

Sou a que chegou com a noite
e se uniu às estrelas
para se dissolver no vinho.

Sou a desconhecida
de todos os caminhos
a que sempre te seguiu.

Sou a que pediu a Deus
a tua redenção
...e tu virás a mim
ó, muito amado.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A lua viu


A lua viu o meu corpo sobre a areia
esperando a  atração da maré
viu-me atraída para as águas
prisioneira de seu encanto.

A lua viu o mar contando-me
o segredo de seus náufragos
enquanto cobria minhas mãos
com seu  estranho convite.

A lua viu quando chegaste
e ergueste meu corpo vivo
do país do nada
viu como beijei tua vida
que me despertava.

A lua viu
e não me quer dar
o teu caminho de luz. 

domingo, 1 de maio de 2016

Este Momento


Ponha azul nos olhos
Pendure flores nos cabelos.
Por certo, haverá música suave
no ambiente.

Não peça explicações
Pois é apenas o fluir da vida
Contando-lhe seus segredos.

Mas talvez você
Esteja sonolento
E não perceba
A beleza cósmica
Desse momento mágico.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Sétimo Portal

Sem perceber que o mundo
Renunciou ao sonho
Ponho minha nave a funcionar
Em terreno lunar

Astronauta incógnita
Mais nauta do que astral – quase colegial –
Quebro o cerne da terra
E planto o germe
Do desligamento total

Parto para além do sétimo portal
E sigo o roteiro
O vai-vem secular
De querer ver o bem
E de não ser ninguém
- como convem –
Sem se desligar

Volto ao mundo
E o silêncio é o meu lar
E o meu jeito de amar.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Festa Marinha


Noites que nasceram do mar
e prolongaram o brilho de meus olhos
espero o teu regresso
entre os dedos da virgem das águas.

Minha sombra se distende
sobre a areia branca
e entre conchas enormes
procuro o mistério da vida.

Pérolas de água vestem
o meu corpo virgem
em minhas mãos vazias,
a carícia da espuma leve
vai acordando minha alma.

Meu vulto prisioneiro,
acorrentado às praias
espera a festa marinha.

domingo, 14 de junho de 2015

Monólogo do Sono

A cidade dormiu.
As ruas piscaram miudinho nas lâmpadas, apagaram a brasa dos últimos cigarros e levaram todos para casa. As ruas queriam sossego. O silêncio tomou conta das coisas e preparou-as para o repouso.

Mas os olhos brincaram de sonâmbulos.
Haviam esquecido o sono em algum lugar e não o sabiam encontrar. Ou, talvez, quisessem ver a noite para descobrir nela uma sombra nova. Por isso, faziam serão.
É bom a gente crescer e olhar o escuro bem escuro, sem medo. Transformar fantasmas em figuras de dança, de circo ou em fantoches irreais.

A cortina vestiu logo de gala uma forma jovem e o vento deu-lhe passos de ensaio para a primeira estréia. Uma roupa caída sobre a cadeira era um sonho trágico que a noite amarrotara, ou do qual levara a alma para um passeio distante, não se sabia onde. Era alguém abandonado ou ferido, desfalecendo lentamente.

O espelho tinha uma assombração novinha, arriscando um reflexo forte para provocar a escuridão. Ele desenhava nas paredes com giz luminoso, como se a noite fosse toda sua.

E havia também o que só a atmosfera trazia, a atmosfera e os olhos abertos, dentro das sombras, acompanhando as horas. Eram figuras fantásticas, variadas e móveis que sabiam correr, subir e voltar de novo, ora intensas, ora meio eclipsadas, irritadas sempre por não encontrarem a quem assustar. Elas começavam a envergonhar-se junto ao meio sorriso que escapava dos lábios semi-infantis.

É bom a gente encontrar o escuro e não se assombrar. Permanecer tranquila, decorando-lhe a face opaca. Apalpar-lhe o corpo e sentí-lo vulnerável. Deixá-lo exibir-se inocente, descobrindo nele uma história pitoresca.
É bom poder detê-lo, esperando com calma alguma luz que vai surgir a qualquer hora – não se sabe de onde – para o encantamento dos olhos. Suportá-lo com uma paciência espichada, advinhando-o efêmero.

É agradável contorná-lo com gestos serenos que acariciam seus duendes ou abraçar-se a ele sem temor. Entregar-lhe até os olhos que se vão fechar num momento imprevisto, sob sua guarda e proteção. Beijar-lhe os lábios que chegam perto e, cansados da tentativa inútil de amedrontar, se fazem mansos e enfeitam o silêncio.